Diagnóstico antes do antibiótico: fazenda de MG evitou 244,5 mil litros de leite descartado
Protocolo de biosseguridade da Embrapa e da Boehringer não tem fazenda certificada no Matopiba, mas os números de custo servem de referência ao produtor.
Fazer o diagnóstico antes de aplicar antibiótico na vaca com mastite deixou de gerar descarte de 244,5 mil litros de leite por ano na Fazenda Santa Luzia, em Passos (MG), com impacto econômico positivo estimado em R$ 660 mil anuais. Os números vêm da Embrapa e fazem parte da Certificação em Biosseguridade (CBS), criada pela Embrapa Gado de Leite (MG) em parceria com a Boehringer Ingelheim. Os dados consultados não apontam fazendas certificadas no Matopiba, mas a lógica do protocolo pode ser aproveitada por quem produz leite na Bahia e no Tocantins.
O que mudou nas fazendas certificadas
Segundo a Embrapa, o protocolo avalia mais de 140 pontos críticos da propriedade, entre animais, pessoas, veículos, instalações e processos. A base é um documento da Embrapa Gado de Leite de 2018, com orientações para ampliar as barreiras sanitárias na bovinocultura leiteira. Em 2020, a pandemia levou fazendas a restringir o acesso de pessoas e veículos à área de produção, exigir jaleco e propé de visitantes e instalar rodolúvios para desinfetar pneus.
Na Fazenda Santa Luzia, o diagnóstico prévio reduziu em 50% o uso de antibióticos para mastite clínica e em 70% para tristeza parasitária bovina. Dos 3.161 casos avaliados, 1.366 (43%) tiveram resultado negativo e dispensaram o medicamento. Por causa disso, a fazenda deixou de descartar o leite que ficaria retido no período de carência. Segundo o produtor Maurício Coelho, até quatro em cada dez tratamentos podem ser evitados no modelo convencional.
Na Fazenda Colorado, em Araras (SP), 100% das vacas recebiam antibiótico na secagem da lactação em 2016. Em 2026, cerca de 80% do rebanho que entra no período seco recebe apenas selante de teto, e os antimicrobianos ficam reservados aos casos necessários. O rebanho em lactação passou de 1.700 para 2.400 vacas entre 2016 e 2024, e a mudança foi acompanhada de queda nos tratamentos contra mastite, segundo a Embrapa.
O registro sanitário como ferramenta
Para Bruno Carvalho, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Gado de Leite, cada ponto de contato na fazenda pode representar um risco ou uma barreira de proteção. Ele alerta que, sem registro sanitário confiável, há risco de enviar ao tanque leite com resíduo de antibiótico. No protocolo, o registro deixa de ser exigência burocrática e passa a sustentar a segurança do alimento.
A Embrapa afirma que a resistência antimicrobiana é considerada uma das maiores ameaças à saúde pública mundial e que o tema é tratado sob o conceito de Saúde Única, que une saúde humana, animal e ambiental. Segundo a Embrapa, o uso indiscriminado de antibióticos na produção animal contribui para o surgimento de bactérias resistentes.
O que o produtor da região pode fazer
A certificação é um programa de terceira parte, e a Embrapa e a Boehringer são as detentoras do programa. Segundo a Embrapa, a meta é alcançar 160 propriedades leiteiras no Brasil. Os dados consultados não indicam auditorias nem prazo para a chegada do selo ao Matopiba.
Mesmo sem buscar o selo, produtores e técnicos da Bahia e do Tocantins podem tomar como referência os critérios descritos pela Embrapa: diagnóstico da propriedade, metas de adoção de boas práticas, registro dos casos de mastite e decisão de tratar com base em exame. A Embrapa Gado de Leite e a Boehringer Ingelheim são os pontos de contato para quem quiser saber como entrar no programa. A Embrapa atende pelo Serviço de Atendimento ao Cidadão, no endereço www.embrapa.br/fale-conosco/sac/.
A Boehringer estuda levar o modelo à pecuária de corte. Ainda não se sabe se o programa chegará a fazendas do Matopiba.
