Só 14% do plantio direto no país segue os três pilares; o que isso pede da lavoura
Pesquisa da Embrapa Solos mostra ganho de água e carbono quando o sistema é completo; o checklist serve ao produtor do Matopiba
Dos 45,8 milhões de hectares em plantio direto no Brasil, apenas 6,4 milhões (14%) cumprem os três pilares do sistema: ausência de revolvimento, cobertura permanente da superfície e diversificação de culturas. O número foi apresentado pelo pesquisador Juca Sá, da Comissão Técnico-científica da FebraPDP, em reunião técnica da Embrapa Solos que marcou o Dia Nacional do Plantio Direto, celebrado em 23 de outubro por força da Lei nº 14.609/2023.
Para o produtor do Matopiba, região de 337 municípios e 73,1 milhões de hectares (Embrapa Territorial), o dado serve de checklist: o ganho medido pela pesquisa vem do sistema completo, não só da ausência de aração. A amostra incluiu propriedades do Cerrado, bioma da fronteira agrícola da região.
O que a pesquisa mediu
As análises partem do projeto SPD Agro+, aprovado em agosto de 2020 em edital do Fundo Clima, com o Ministério da Agricultura e Pecuária como proponente. Foram avaliadas 63 propriedades no Cerrado, na Mata Atlântica e na transição para a Amazônia, com 3.402 amostras deformadas e 3.402 não deformadas, coletadas em seis camadas até 100 centímetros.
O preparo convencional do solo causou perdas acumuladas de carbono entre 38,1% e 45,8% em relação à vegetação original. Já o plantio direto recuperou o carbono ao longo de todo o perfil e alcançou ou superou o estoque da mata nativa em sete dos 13 agrupamentos hidroclimáticos analisados.
- Taxa média de sequestro: 1,74 tonelada de carbono por hectare ao ano sob manejo contínuo.
- Água: até 200 milímetros adicionais de armazenamento, frente ao solo degradado.
- Terra poupada: cada hectare em plantio direto preserva de 0,88 a 1,01 hectare de mata nativa, segundo o palestrante.
Sá disse que o sequestro depende de três componentes: quantidade, qualidade e frequência da biomassa que chega ao solo. O acúmulo vem de raízes profundas e de cultivos intercalares, como milho ou sorgo consorciados com braquiária, que mantêm o solo coberto os 365 dias do ano.
Escala e valor estimado
Pela projeção apresentada, expandir as práticas consolidadas do sistema para as áreas de cultivo anual do país teria potencial de mitigação de 300,7 teragramas de CO2 equivalente. Isso compensaria 13,8% das emissões brasileiras de 2024 e quase 48,4% da pegada de carbono do setor agrícola no mesmo ano. O palestrante estimou esse volume em cerca de 3 a 9 bilhões de dólares para os produtores.
Os resultados foram apresentados na reunião e não encontramos, até aqui, publicação oficial do SPD Agro+ para conferência independente. Quem quer saber em que ponto a própria fazenda está pode comparar a lavoura com os três pilares citados. A Embrapa Solos tem 462 publicações sobre o sistema de manejo plantio direto.
