Embrapa Trace: ferramenta de rastreio da soja e da carne mira exigência da UE
API da Embrapa liga TerraClass, que cobre o Cerrado, e ElegiAgro para comprovar origem e conformidade ambiental de soja, café e carne bovina
A Embrapa apresentou a Embrapa Trace, tecnologia digital em formato de API para rastrear produtos agropecuários da origem ao mercado. A ferramenta atende as cadeias de soja, café e carne bovina, duas delas centrais para o Matopiba, e busca comprovar a conformidade agroambiental e sanitária para manter o acesso de produtos brasileiros a mercados estratégicos.
Segundo a Embrapa, a solução atende a exigências internacionais como o Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR) e o controle de antimicrobianos na produção animal. Soja, café e carne bovina estão entre os produtos sujeitos ao EUDR. De acordo com a Agrolink, em matéria de dezembro de 2025, o início da exigência foi adiado para dezembro de 2026.
Como a ferramenta funciona
A Embrapa Trace se conecta ao TerraClass, projeto da Embrapa e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que fornece dados sobre uso e cobertura da terra na Amazônia e no Cerrado. Também se integra ao ElegiAgro, sistema da Embrapa que automatiza a análise de elegibilidade agroambiental ao cruzar bases cadastrais, fundiárias e geoespaciais.
Segundo o pesquisador Anderson Alves, da Embrapa Agricultura Digital (SP), a tecnologia padroniza informações autodeclaradas, valida e integra certificações existentes e consolida as evidências em um parecer único de conformidade, “como um passaporte digital do produto”. A Embrapa informa que cada etapa da produção pode ser rastreada isoladamente, o que permite incorporar atividades ainda não certificadas. Os relatórios por etapa são acessíveis por QR Code.
A Embrapa Trace estará na Plataforma AgroBrasil Mais Sustentável (AB+S), do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), e também poderá ser acessada pela plataforma AgroAPI. Segundo a Embrapa, os relatórios dão base técnica para o País negociar a abertura de mercados ou contestar barreiras comerciais.
Custo de conformidade
Luiza Kreimeier, assessora técnica do Conselho Nacional do Café (CNC), afirma que tecnologias gratuitas e validadas por instituições oficiais podem reduzir custos que hoje pesam sobre as cooperativas e acabam repassados ao produtor. Segundo ela, o CNC incentiva as cooperativas a testar diferentes soluções e avaliar se se encaixam nas rotinas e nos sistemas que já usam.
Para o Matopiba, que tem a soja como principal cultura de exportação, a questão prática é como a comprovação de origem chegará à fazenda. A Embrapa não detalha nesse material o que será pedido ao produtor, e as exigências devem vir dos compradores e da regulamentação, não da ferramenta em si.
O que ainda não está claro
Os textos consultados divergem sobre o estágio da tecnologia: a Embrapa a descreve como disponível em API, enquanto a Agrolink, em dezembro de 2025, a chamou de protocolo em construção, com validação inicial financiada pelo Mapa e pelo Banco Mundial nas cadeias de carne bovina, couro, soja e café. Não há informação sobre piloto no Matopiba nem sobre como o TerraClass será usado para checar áreas da região.
O produtor que vende para a Europa, direta ou por tradings e cooperativas, deve perguntar a seus compradores quais dados de origem serão pedidos e em que prazo.


