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Soja no Cerrado: contar abelhas não basta, produto aplicado e mata pesam mais

Levantamento da Embrapa em Goiás liga bioinsumos, menos agroquímico de alta periculosidade e vegetação nativa por perto a polinizadores mais equilibrados.

Por Redação MATOPIBAFAZ ·
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Vista aérea de talhões de lavoura ao lado de fragmento de vegetação nativa em Rio Verde (GO), cenário do estudo da Embra
Vista aérea de talhões de lavoura ao lado de fragmento de vegetação nativa em Rio Verde (GO), cenário do estudo da Embrapa com abelhas na soja · Foto: Divulgação/embrapa.br

Lavouras de soja que usaram mais bioinsumos e menos inseticidas e fungicidas sintéticos de alta periculosidade, e que ficam perto de fragmentos de Cerrado, tiveram comunidades de abelhas mais equilibradas. É o que mostra publicação técnica da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, com dados de lavouras de Rio Verde (GO) e Montividiu (GO). O estudo não foi feito no Matopiba, mas o bioma é o mesmo das lavouras de soja do oeste da Bahia, do sul do Maranhão e do sul do Piauí.

O que o levantamento mediu

Os pesquisadores acompanharam sete talhões comerciais de soja, de 45 a 146 hectares, durante a floração, entre novembro e janeiro. Foram capturados 11.199 insetos, entre eles 764 abelhas. Segundo a Embrapa, as abelhas somam 53 espécies de cinco famílias, contando as lavouras e a vegetação nativa do entorno. Nas lavouras de soja foram 40 espécies, e 27 delas são novos registros de visitantes florais da cultura no país.

Do total de abelhas, 89% são espécies nativas silvestres e 11% são a exótica Apis mellifera, a abelha africanizada. Cada propriedade recebeu um índice de adoção de produtos biológicos, calculado pelo número de aplicações e pelos escores de periculosidade ambiental do Ibama e do Ministério da Agricultura e Pecuária.

Agroquímico, mata e solo

Segundo a publicação, o uso frequente de inseticidas e fungicidas sintéticos de alta periculosidade elimina espécies nativas mais sensíveis e favorece poucas espécies tolerantes, como as do gênero Dialictus. A contagem bruta de abelhas pode enganar: áreas com muito produto sintético tiveram muitos indivíduos, mas concentrados em poucos grupos resistentes. Já as lavouras com bioinsumos e fertilizantes de menor risco ambiental tiveram populações mais bem distribuídas.

Abelha nativa visita flor de soja durante a floração; estudo da Embrapa em lavouras de Rio Verde e Montividiu (GO) registrou 40 espécies na cultura
Abelha nativa visita flor de soja durante a floração; estudo da Embrapa em lavouras de Rio Verde e Montividiu (GO) registrou 40 espécies na cultura · Foto: Divulgação/embrapa.br

A distância da mata também pesou. Quanto mais longe a lavoura dos remanescentes de Cerrado, menor a riqueza e a abundância de abelhas nativas. Cerca de 18% das espécies precisam de ocos em troncos para fazer ninho, recurso que só existe na vegetação preservada. Outras 61% das espécies nidificam no solo, e 66% desses exemplares foram capturados dentro das lavouras. Os autores relacionam essa presença ao plantio direto e à manutenção da palhada.

Na coleta, a amostragem passiva com pratos-armadilha (pan traps) capturou 95% das abelhas e 33 espécies na soja. A rede entomológica pegou 5% dos exemplares e 7 espécies.

Para o produtor do Matopiba, o estudo não mede abelhas nem produtividade em nenhuma lavoura da região, e os resultados de Goiás não podem ser transferidos automaticamente para a Bahia, o Maranhão ou o Piauí. O que ele oferece é um critério de manejo: considerar a periculosidade ambiental dos produtos na hora de escolher o programa de aplicação e olhar o papel dos fragmentos de vegetação nativa e da palhada nas áreas da fazenda.

De onde vêm os dados

O trabalho foi feito na primeira fase do Projeto Regenera Cerrado, de outubro de 2022 a agosto de 2025, com liderança do Instituto Fórum do Futuro e financiamento da Cargill. A publicação está disponível para download gratuito no portal da Embrapa. Ainda não há resultado equivalente para as lavouras do Matopiba.

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